Royalties da mineração viram cachê: R$ 650 mil para Henry Freitas enquanto Parauapebas afunda em buracos e esgoto

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Enquanto a população de Parauapebas enfrenta o desafio diário de desviar de buracos e conviver com o esgoto a céu aberto, a gestão municipal optou por um investimento milionário no entretenimento. O Carnapebas 2026, evento de carnaval fora de época, tornou-se o centro de uma polêmica sobre a inversão de prioridades no uso do dinheiro público, especificamente da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral).

A CFEM deveria priorizar investimentos em áreas críticas: saneamento básico, pavimentação e manutenção de vias, saúde, educação, mobilidade urbana e desenvolvimento sustentável. Em Parauapebas, cidade que vive da mineração (principalmente ferro, com forte presença da Vale), esses recursos representam uma das principais fontes de receita para mitigar os problemas crônicos deixados pelo extrativismo: ruas esburacadas, falta de asfalto, esgoto a céu aberto e precariedade no dia a dia da população.

No entanto, o que se vê na prática, mais uma vez, é o desvio de foco: enquanto o cidadão de Parauapebas enfrenta diariamente o drama de sair de casa pisando em esgoto a céu aberto, atravessando centenas de buracos nas ruas intransitáveis e lidando com a falta de infraestrutura básica para chegar a qualquer lugar — inclusive ao próprio evento festivo —, a Prefeitura opta por destinar R$ 650 mil (valor do cachê do cantor Henry Freitas, contratado via dispensa de licitação) de recursos da CFEM para bancar um show no Carnapebas 2026, carnaval fora de época realizado de 26 a 28 de fevereiro no Lago Nova Carajás.

O empenho, feito pela Secretaria Municipal de Cultura, classifica a contratação como “ação de difusão cultural” no programa “Cidade das Artes: nossa cultura, nosso futuro”. Mas o questionamento é inevitável: para que serve realmente a CFEM quando a prioridade vira entretenimento de luxo, em vez de resolver o caos urbano?

Outro ponto que amplia a polêmica é a presença de camarote comercializado dentro do evento oficial. O show é custeado com recurso público, mas há exploração privada de espaço premium.

Até o momento, não foi detalhado publicamente se existe contrapartida financeira direta ao município pela exploração desse espaço.

Prioridade ou espetáculo?

A CFEM não é um recurso comum. Ela existe porque o município tem seu território explorado economicamente. É um dinheiro vinculado a compensação por impactos reais.

Quando o morador atravessa esgoto e crateras no asfalto para assistir a um evento pago com royalty da mineração, o contraste vira símbolo.

O debate que surge não é contra cultura ou entretenimento. É sobre prioridade orçamentária.

  • A drenagem está resolvida?
  • A pavimentação está em dia?
  • O saneamento está universalizado?
  • A mobilidade urbana suporta o crescimento da cidade?

Se a resposta for não, a discussão volta ao ponto inicial: qual é a finalidade prática da CFEM em Parauapebas?

Enquanto o prefeito e a gestão celebram a “terapia” da folia e o “investimento histórico na cultura”, o cidadão comum continua pagando o preço alto da mineração — com os royalties que deveriam melhorar a cidade sendo direcionados para shows caros. A pergunta que fica é simples e incômoda: quantos buracos nas ruas, quantos metros de rede de esgoto e quantas melhorias na mobilidade poderiam ser feitos com R$ 650 mil? A CFEM não foi criada para bancar estrelato passageiro, mas para construir um futuro menos precário para quem vive no entorno da extração mineral.

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