O prefeito de Tucuruí, Alexandre Siqueira (MDB), vive um caso raro e constrangedor na política brasileira: é o único prefeito inelegível que segue no cargo graças a manobras jurídicas e, segundo críticos, ao apoio de uma maioria na Câmara Municipal que muitos veem como “comprada” ou alinhada por interesses.
O Ministério Público Eleitoral e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmaram sua cassação e inelegibilidade por oito anos por compra de votos e abuso de poder econômico. A principal prova foi a distribuição indiscriminada de combustível a eleitores durante a campanha eleitoral — prática clássica de troca de favores por apoio nas urnas.
Apesar da condenação confirmada pelo TSE em 2025 (por 5 a 2), Siqueira permanece no executivo municipal por interpretações controversas de liminares e recursos que adiaram sua saída efetiva, suspendendo até eleições suplementares. Para muitos tucuruienses, isso representa não apenas impunidade, mas o domínio de uma máquina política que se perpetua no poder.
Gastos explosivos com combustível em 2026
Agora, em pleno ano eleitoral — com sua esposa, a deputada Andreia Siqueira (MDB), cotada para disputar a sucessão —, os números chamam atenção de forma alarmante. Relatórios oficiais da Prefeitura de Tucuruí revelam gastos milionários com combustível apenas nos primeiros meses de 2026 (janeiro a Março):
- Auto Posto Tucuruí Ltda.: R$ 2.124.353,78 em pagamentos realizados, todos justificados como aquisição de combustível para a Prefeitura via pregão nº 8.2025-024 e contrato 20250175. As despesas são parceladas em dezenas de empenhos, com valores que variam de milhares a centenas de milhares de reais por período curto (ex.: R$ 290 mil em um único registro, R$ 258 mil em outro).
- S G da Silva Meneses Ltda.: R$ 2.177.574,49 no mesmo período, com contratos semelhantes para fornecimento a diversas secretarias (Educação, Saúde, Urbanismo, Assistência Social etc.).
- Posto Paraíso Ltda.: “Apenas” R$ 209.028,48, direcionados principalmente ao Fundo Municipal de Saúde.
Total aproximado só nesses três fornecedores: mais de R$ 4,5 milhões em menos de quatro meses. Isso equivale a uma “torradeira” de recursos públicos em combustível, sem que a população consiga enxergar, no dia a dia, uma frota municipal ou obras de grande porte que justifiquem tal volume de consumo.
Questionamentos que não param de crescer
Quem circula por Tucuruí não vê uma transformação visível na infraestrutura ou uma expansão extraordinária da frota de veículos da Prefeitura que explique esse rombo. As justificativas oficiais repetem o mesmo texto-padrão: “aquisição de combustível para atender a Prefeitura… conforme pregão e contrato”. Mas o timing é suspeito: ano de eleição, esposa na disputa, e o histórico de distribuição de combustível como moeda eleitoral.
O padrão levanta uma pergunta incômoda: estaria se repetindo, meses antes do pleito, a “velha prática” que levou à cassação de Siqueira? Distribuir combustível (ou recursos que permitam isso) de forma generosa pode ser uma forma velada de manter lealdades, fortalecer bases e influenciar eleitores — exatamente o que o MP Eleitoral e o TSE condenaram como compra de votos e abuso de poder econômico.
A Câmara Municipal, que deveria fiscalizar o executivo, tem sido criticada por manter uma maioria que protege Siqueira, permitindo que ele siga “na cadeira” apesar da inelegibilidade. Para opositores e parte da população, isso cheira a acordo político que prioriza o grupo no poder em detrimento da transparência e do interesse público.
Falta de prestação de contas clara
Enquanto isso, a cidade segue com desafios típicos do interior paraense: saúde, educação, mobilidade e saneamento que demandam recursos reais, não apenas abastecimento de tanques. Gastar milhões em combustível em tão pouco tempo, sem resultados palpáveis visíveis, soa, no mínimo, como má gestão — ou, na pior hipótese, como preparação de terreno para mais um ciclo eleitoral questionável.
Tucuruí merece explicações concretas: onde exatamente esse combustível foi consumido? Qual a quilometragem rodada pela frota? Quais secretarias e veículos justificam esses valores? A transparência pública exige mais do que tabelas de empenhos repetitivos.
Enquanto Alexandre Siqueira se mantém no cargo por brechas jurídicas e apoio parlamentar, e sua esposa se prepara para a disputa, os números não mentem: o dinheiro da população está sendo torrado em combustível em ritmo acelerado. Se não for para “torrar” em obras ou serviços visíveis, para que serve? A história recente da cidade sugere que o eleitor tucuruiense deveria ficar de olhos bem abertos. Impunidade e continuísmo político não constroem uma cidade melhor — só perpetuam dúvidas e desconfiança.
Fonte: Lista de despesas pagas pela prefeitura de Tucuruí janeiro a Março 2026

POSTO PARAISO LTDA R$ 209.028,48 Veja completo no portal de transparência aqui

AUTO POSTO TUCURUÍ LTDA R$ 2.124.353,78 Veja completo no portal de transparência aqui

S G DA SILVA MENESES LTDA R$ 2.177.574,49 Veja completo no portal de transparência aqui
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