Prefeita no interior do Pará ignora GAECO e paga mais de R$ 95 milhões a empresas de organização criminosa em 2026

Levantamento baseado em denúncia do GAECO e dados do Portal da Transparência aponta que empresas mencionadas em investigação continuam recebendo contratos milionários da Prefeitura de Canaã dos Carajás em 2026.
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Enquanto moradores de Canaã dos Carajás, uma das cidades mais ricas do Pará graças à arrecadação bilionária do minério, enfrentam filas desde as 4h da manhã por consultas médicas, ruas esburacadas, falta de água e serviços públicos precários, a Prefeitura segue repassando dezenas de milhões de reais a empresas apontadas pelo Ministério Público do Pará (MPPA) como integrantes de uma organização criminosa que domina as contratações públicas no município.

De acordo com denúncia de 132 páginas oferecida à Vara de Combate ao Crime Organizado de Belém, o esquema envolve núcleo político (com agentes públicos e vereadores), núcleo técnico e núcleo empresarial atuando de forma coordenada para fraudar licitações, cobrar propinas de 6% a 10%, realizar medições fraudulentas e, em muitos casos, não executar os serviços contratados — mas sempre recebendo os pagamentos em dia.

O ex-secretário de Governo Roberto Andrade Moreira é apontado como líder do núcleo político. As provas incluem anotações de próprio punho controlando repasses, áudios de WhatsApp cobrando “os 6% do bruto” e R$ 182 mil em espécie apreendidos em sua residência durante a Operação Locus II.

Pagamentos continuam em 2026

Levantamento baseado na denúncia do GAECO e nos dados do Portal da Transparência da Prefeitura mostra que as empresas citadas no esquema seguem recebendo recursos da gestão da prefeita Josemira Gadelha. Apenas em 2026 (até o momento), os principais valores pagos incluem:

  • TALISMÃ LOCAÇÕES & SERVIÇOS LTDA: R$ 18.898.798,95
  • LOCAN – LOCAÇÃO DE MÁQUINAS E VEÍCULOS LTD: R$ 15.230.155,71
  • GONÇALVES E DIAS ENGENHARIA LTDA: R$ 14.448.210,15
  • WHITE TRATORES SERVIÇOS DE TERRAPLENAGEM LTDA: R$ 5.887.440,77

Outras empresas do grupo também receberam milhões, totalizando R$ 95.475.193,15 (noventa e cinco milhões, quatrocentos e setenta e cinco mil, cento e noventa e três reais e quinze centavos) direcionados a empresas citadas na denúncia apenas neste ano.

Os pagamentos ocorrem mensalmente, enquanto a cidade registra graves deficiências em manutenção básica, saúde e infraestrutura.

O MPPA estima que, até a Operação Locus II (2024), o esquema já havia desviado cerca de R$ 1,5 bilhão. Segundo a denúncia, a estrutura continua operando com a mesma lógica: editais com cláusulas restritivas, simulação de concorrência, inabilitação de concorrentes, medições fraudulentas e priorização de pagamentos.

Conivência e proximidade

Roberto Andrade Moreira, afastado do cargo por decisão judicial, ainda circula em reuniões com a prefeita Josemira Gadelha, inclusive com registros fotográficos publicados nas redes sociais dela. A denúncia descreve o funcionamento do esquema com detalhes, incluindo repasses de propina via saques em espécie ou transferências para “terceiros indicados”, com conivência ou omissão de fiscais e agentes públicos.

Canaã dos Carajás, cidade com enorme potencial econômico, convive com a paradoxal realidade de serviços públicos típicos de municípios pobres. Enquanto a gestão projeta imagem de eficiência, moradores relatam asfalto danificado, postos de saúde lotados e água racionada.

O GAECO cumpriu sua etapa ao apresentar uma denúncia robusta, com provas materiais, interceptações e documentos. Cabe agora aos órgãos de controle e ao Poder Judiciário verificar se o ciclo será interrompido ou se o município continuará destinando recursos públicos ao mesmo grupo.

Fontes: Denúncia do GAECO/MPPA (Procedimento Investigatório Criminal SIMP nº 000009-130/2020 e autos relacionados), Portal da Transparência da Prefeitura de Canaã dos Carajás e Operação Locus II.

Lista de empresas que desviaram quase R$ 1,5 bilhão dos cofres públicos: 21 delas continuam faturando com dinheiro público
Núcleo Empresarial apontados pelo GAECO/MPPA como integrantes do núcleo empresarial da organização criminosa.
Empresários e empresas apontados pelo GAECO como integrantes do núcleo de liderança da organização investigada continuam recebendo contratos e pagamentos milionários da Prefeitura de Canaã dos Carajás. Mesmo após a denúncia, os recursos públicos seguem destinados aos mesmos grupos empresariais, sob a gestão da prefeita Josemira Gadelha.
Núcleo político apontado pelo GAECO: o atual presidente da Câmara Municipal, Flávio Gomes, é citado na denúncia como uma das lideranças da suposta organização criminosa investigada pelo Ministério Público. Mesmo diante da gravidade das acusações, segue no cargo sem enfrentar questionamentos públicos relevantes por parte dos demais vereadores.
Dinheiro em espécie, documentos, anotações e outros materiais foram apreendidos pelo GAECO durante a operação que teve como alvo o ex-secretário de Governo Roberto Andrade Moreira, apontado pelo Ministério Público como figura central do esquema investigado. Mesmo após a operação e o afastamento judicial, a prefeita Josemira Gadelha voltou a aparecer em fotos publicadas nas redes sociais ao lado de Roberto Andrade em reuniões realizadas neste ano.

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