Enquanto o Ministério Público do Pará, por meio do GAECO, expõe em denúncia de 132 páginas uma organização criminosa que teria controlado licitações, fraudado medições e desviado recursos públicos em Canaã dos Carajás, a prefeita Josemira Gadelha segue autorizando pagamentos a dezenas de empresas citadas no mesmo processo. Ao mesmo tempo, articula a candidatura do marido, Eugênio Gadelha — ex-secretário de Obras —, ao cargo de deputado estadual.

A denúncia oferecida pelo GAECO aponta que, entre 2014 e dezembro de 2024, empresas ligadas ao esquema receberam R$ 1.490.290.923,83 apenas do município de Canaã dos Carajás. O documento descreve uma estrutura com núcleo político (executivo e legislativo), núcleo de assessoria técnica e núcleo empresarial, com divisão de tarefas para direcionar licitações, frustrar a competitividade, fraudar contratos e praticar corrupção ativa e passiva.
Entre as empresas listadas na denúncia e que, segundo levantamentos recentes, continuam faturando com a Prefeitura — mesmo após a operação do GAECO que apreendeu dinheiro em espécie, aparelhos eletrônicos, anotações, áudios e mensagens — estão:

Empresas que continuam como fornecedoras da Prefeitura até hoje:
- White Tratores Serviços de Terraplenagem Ltda.
- Ribeiro e Silva Engenharia Ltda.
- Construfaz Máquinas e Terraplenagem Ltda.
- Gonçalves e Dias Engenharia Ltda.
- RGS Engenharia Eireli-EPP
- Ativa Construtora Engenharia Ltda.
- J.C. Construtora Ltda.
- CSP – Construtora Sul Pará Ltda.
- Locan – Locação de Máquinas e Veículos Ltda.
- Talismã Locações & Serviços Ltda.
- Roma Construções e Transportes Ltda.
- Starker BR Transportes Ltda.
- Xodó Comércio de Combustíveis Ltda.
- Auto Posto Queiroz Ltda.
- Auto Posto Araguaia Ltda.
- Auto Posto Novo Horizonte Ltda.
- Auto Posto Novo Brasil Ltda.
Algumas dessas empresas operam justamente no segmento de obras, terraplenagem, locação de máquinas e serviços — área sob responsabilidade da Secretaria de Obras durante o período em que Eugênio Gadelha ocupou o cargo. Segundo a denúncia, o esquema envolvia superfaturamento, medições fraudulentas e serviços que “nunca saíram do papel”, mas foram pagos com dinheiro público.
A denúncia do GAECO detalha que a organização criminosa atuava de forma estruturada desde pelo menos 2014, independentemente de conotação partidária, controlando desde a formalização de demandas até a execução contratual. Pregoeiros, fiscais de contrato, secretários e empresários teriam atuado de forma coordenada. A operação resultou em busca e apreensão, quebra de sigilos e afastamento de funções públicas.
Apesar disso, a Prefeitura de Canaã dos Carajás, sob a gestão de Josemira Gadelha, mantém contratos e pagamentos a várias dessas empresas. Ao mesmo tempo, a prefeita movimenta a pré-candidatura do marido a deputado estadual, em um cenário em que o próprio Ministério Público aponta suspeitas de articulação política e empresarial envolvendo o mesmo grupo de empresas que continuam recebendo recursos públicos.
A denúncia não é sentença. Os acusados ainda responderão ao processo e têm direito à ampla defesa. No entanto, o contraste é gritante: enquanto o GAECO descreve um esquema de proporções bilionárias, com apreensão de provas materiais e estrutura completa da organização criminosa, a prefeita segue assinando pagamentos às mesmas empresas apontadas como integrantes do esquema e tenta projetar o marido — que passou pela pasta de Obras — para a Assembleia Legislativa.
A população de Canaã dos Carajás, que convive com as consequências de obras superfaturadas e serviços mal executados ou inexistentes, observa a continuidade dos contratos e a movimentação política. A pergunta que permanece é simples: quantos milhões ainda serão pagos a empresas citadas em denúncia de 132 páginas enquanto se articula a candidatura de quem ocupou a secretaria responsável por boa parte desses contratos?
Veja alguns áudios anexados à denúncia:
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