Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará — município enriquecido pelos royalties da mineração (CFEM da Vale) e frequentemente apontado entre os de maior receita per capita do Brasil —, vive um contraste gritante. Enquanto o Ministério Público do Estado do Pará, por meio do GAECO, ofereceu denúncia de 132 páginas descrevendo uma organização criminosa que teria controlado licitações, fraudado medições e desviado recursos públicos entre 2014 e dezembro de 2024, a prefeita Josemira Gadelha (MDB) segue autorizando pagamentos a dezenas de empresas citadas no mesmo processo. Ao mesmo tempo, articula a pré-candidatura do marido, Eugênio Gadelha (ex-secretário municipal de Obras), a um cargo eletivo de fiscalização (deputado estadual).
A denúncia, protocolada na Vara de Combate ao Crime Organizado de Belém e vinculada ao Procedimento Investigatório Criminal e a medidas cautelares (busca e apreensão, quebra de sigilos e afastamento de funções), aponta uma estrutura organizada com núcleo político (executivo e legislativo), núcleo de assessoria técnica e núcleo empresarial. O documento descreve divisão de tarefas para direcionar certames, frustrar a competitividade, fraudar contratos (medições superfaturadas, serviços de má qualidade ou inexistentes) e praticar corrupção ativa e passiva.

Segundo o texto, empresas ligadas ao esquema receberam, apenas do município, cerca de R$ 1,49 bilhão entre 2014 e o final de 2024 (dados cruzados com o Sistema REI do TCM/PA). O líder do núcleo político é apontado como Roberto Andrade Moreira, reiteradamente nomeado em cargos estratégicos independentemente da gestão.

A Operação Locus II – Fase Terra Comprometida, deflagrada em 6 e 7 de agosto de 2024 pelo GAECO/MPPA com apoio da PRF e do GSI, cumpriu dezenas de mandados de busca e apreensão. Foram apreendidos valores em espécie (centenas de milhares de reais e euros), cheques, documentos, aparelhos eletrônicos, anotações manuscritas de “acertos” (incluindo controle de percentuais de 6% a 10% sobre notas fiscais) e outros elementos. A ação mirava a desarticulação do esquema de manipulação de licitações, corrupção e lavagem de capitais em segmentos como construção civil, locação de máquinas/veículos, combustíveis e outros.

Apesar disso, levantamentos baseados no Portal da Transparência e em reportagens locais indicam que empresas nominalmente citadas na denúncia — entre elas White Tratores Serviços de Terraplenagem Ltda., Gonçalves e Dias Engenharia Ltda., RGS Engenharia, Construfaz, Locan – Locação de Máquinas e Veículos Ltda., Talismã Locações & Serviços Ltda., CSP – Construtora Sul Pará, além de postos de combustíveis como Auto Posto Queiroz e outros — continuaram recebendo recursos públicos sob a gestão de Josemira Gadelha. Reportagens apontam dezenas de milhões pagos apenas em 2025 e 2026 a empresas do grupo (ex.: valores elevados a Talismã, Locan, Gonçalves e Dias e White Tratores). Muitas atuam precisamente em obras, terraplenagem e locação de equipamentos — área sob a Secretaria de Obras no período em que Eugênio Gadelha ocupou o cargo.
Eugênio Gadelha, engenheiro e marido da prefeita, comandou a pasta de Obras e deixou o cargo em 2026 para se filiar ao MDB e lançar pré-candidatura a deputado estadual, com discurso de “levar o modelo de Canaã para o Pará”. A prefeita, reeleita em 2024 com cerca de 80% dos votos e com alta aprovação popular em pesquisas, tem histórico de forte capital político no município, que se beneficia da enorme arrecadação mineral.
A denúncia não é sentença. Os acusados têm direito à ampla defesa e ao contraditório, e o processo ainda tramita. Josemira Gadelha e Eugênio Gadelha não aparecem como denunciados nas páginas iniciais do documento fornecido.
No entanto, o contraste é evidente: uma denúncia de proporções bilionárias, com provas materiais (áudios, anotações de percentuais de propina, apreensão de dinheiro em espécie escondido, incluindo em telhado de residência) e descrição detalhada de um esquema estruturado desde pelo menos 2014, coexistindo com a continuidade de contratos e pagamentos às mesmas empresas apontadas, enquanto se projeta o ex-titular de uma das pastas mais estratégicas para um cargo de fiscalização estadual.
A população de Canaã dos Carajás, que convive com as consequências de obras questionadas e serviços alegadamente mal executados ou superfaturados, observa a manutenção dos fluxos financeiros e a movimentação política. A pergunta que paira é quantos milhões ainda serão direcionados a empresas citadas em 132 páginas de denúncia enquanto se articula a candidatura de quem passou pela secretaria responsável por boa parte desses contratos. O Ministério Público e o Judiciário seguirão o processo; a transparência e o controle social permanecem essenciais.
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