A recente operação da Polícia Federal em Belém, deflagrada em 16 de março de 2026, expõe mais um episódio sombrio que mancha a política paraense e reforça a percepção de que o poder no estado opera em redes de favorecimento e opacidade.
A apreensão de R$ 500 mil em dinheiro vivo, prisões em flagrante — incluindo um servidor da Casa Civil do governo Helder Barbalho (MDB) — e, sobretudo, a descoberta de uma planilha manuscrita com nomes de deputados federais associados a valores altos sem explicação clara revelam um padrão preocupante de proximidade entre mandatos parlamentares, recursos públicos e esquemas suspeitos de lavagem de dinheiro, associação criminosa e possível corrupção.
Os quatro deputados citados no documento, todos alinhados politicamente ao governador Helder Barbalho (MDB), são:
- Raimundo Santos (PSD): o nome com o maior valor registrado — R$ 538 mil. Como figura de peso no PSD paraense, sua ligação com quantias tão elevadas em um contexto de movimentações atípicas e contratos questionáveis levanta suspeitas graves sobre o uso de influência para direcionar emendas ou benefícios públicos. A “estranheza” que ele alegou à imprensa não basta para dissipar dúvidas; o que se espera é transparência total sobre qualquer relação, ainda que indireta, com os envolvidos.
- Henderson Pinto (MDB): associado a R$ 485 mil, valor quase tão alto quanto o de Santos. Representante do MDB — partido dominante no estado —, Henderson aparece em um momento em que investigações apontam para contratos superfaturados ou inexigíveis na área cultural e turística. Sua presença na planilha, ao lado de órgãos como a Setur e municípios do interior, sugere possível articulação para desvio de verbas federais ou estaduais. Silêncio ou respostas evasivas só alimentam a desconfiança.
- Olival Marques (MDB): ligado a R$ 139 mil. Outro emedebista fiel ao grupo de Helder, Olival tem histórico de atuação em bases do interior e Marajó. A quantia, embora menor, não é irrelevante em um esquema que envolve “laranjas”, saques em espécie e resistência armada à PF. A ausência de manifestação pública até o momento da publicação original da coluna de Lauro Jardim (O Globo) indica uma estratégia de contenção de danos, mas não resolve a questão central: por que seu nome está ali?
- Keniston Braga (MDB): com R$ 100 mil anotados. Deputado de Parauapebas, região rica em mineração mas marcada por desigualdades brutais, Keniston se vende como defensor do desenvolvimento local. No entanto, sua “surpresa” declarada ao saber da citação soa conveniente e insuficiente. Em um estado onde emendas parlamentares e contratos públicos são moeda de troca política, a inclusão de seu nome em uma planilha apreendida em operação contra lavagem de dinheiro exige mais do que espanto: exige explicações concretas sobre qualquer vínculo com os alvos, as empresas envolvidas (como as que faturaram milhões via inexigibilidade na Fundação Cultural do Pará) ou os municípios mencionados (Bagre, Curralinho, Bujaru, Muaná).
A PF ainda não os investiga formalmente, e a presunção de inocência deve ser respeitada. Mas o contexto é grave: prisões, arma apontada contra agentes, servidor estadual preso e um esquema que mistura dinheiro vivo, contratos culturais suspeitos e nomes de parlamentares do mesmo bloco governista. Isso não é mera coincidência; é um alerta vermelho sobre como o poder se organiza no Pará, onde o MDB de Helder Barbalho domina e onde investigações semelhantes já rondam aliados e familiares.
Esses deputados, que ocupam cadeiras na Câmara Federal graças ao voto popular, têm o dever de esclarecer publicamente e de forma detalhada qualquer possível conexão. Silêncio, surpresa fingida ou negações genéricas não servem mais. O povo do Pará — especialmente em regiões carentes como o interior e o sudeste mineral — merece saber se seus representantes priorizam o interesse público ou se integram a uma rede que transforma mandato em ferramenta de enriquecimento obscuro.
Enquanto a investigação avança, a sociedade paraense não pode aceitar que escândalos como esse sejam tratados como “fofoca política”. É hora de cobrar accountability real. Caso contrário, a planilha apreendida será apenas mais uma página na longa história de impunidade que assola o estado.




