Mesmo após operação do GAECO que revelou desvios de mais de R$ 1,5 bilhão, organização criminosa ainda controla contratos em Canaã dos Carajás

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Enquanto o Ministério Público do Pará (MPPA) e o GAECO celebram operações e vazam detalhes contra adversários políticos do governador Helder Barbalho — como o prefeito de Ananindeua, Dr. Daniel Santos, alvo da Operação Hades que precisou ser suspensa pelo STF por violações graves na condução das investigações —, uma das cidades mais ricas do Brasil continua refém da mesma quadrilha que, segundo o próprio MP, desviou quase R$ 1,5 bilhão dos cofres públicos em dez anos. Em Canaã dos Carajás, a organização criminosa denunciada em uma ação penal de 132 páginas não só sobreviveu à Operação Locus II – Terra Comprometida como controla 90% das obras e contratos da atual gestão da prefeita Josemira Gadelha (MDB).

O documento do GAECO, oferecido à Vara de Combate ao Crime Organizado de Belém, é devastador. Descreve uma estrutura “endógena e empresarial” que atua desde 2014, com núcleos político, técnico e empresarial perfeitamente articulados. O líder do núcleo político? Roberto Andrade Moreira, ex-secretário de Governo afastado por ordem judicial. Ele é apontado como o “chefe” que definia quem ganhava licitações, cobrava propina de 6% a 10% sobre o bruto das notas fiscais e controlava até a liberação de pagamentos. Provas? Anotações manuscritas apreendidas na casa dele (com R$ 182 mil em espécie escondidos, incluindo R$ 67 mil numa mochila jogada no telhado), mensagens de WhatsApp explícitas (“tu pega os 6 milhão aí, passa 360 para eles”), medições fraudulentas aprovadas e empresas “laranjas” ou coniventes.

E o que aconteceu depois da denúncia e da operação? Nada. Ou melhor: tudo continuou exatamente igual.

Roberto Andrade, denunciado como articulador central, aparece em fotos publicadas pela própria prefeita Josemira Gadelha nas redes sociais, em reunião dentro da prefeitura. O ex-secretário afastado pela Justiça voltou ao convívio íntimo do poder. Enquanto isso, o atual secretário de Governo, Adam Carlos Amorim — formalmente acusado pelo GAECO de receber propinas para liberar medições fraudulentas em contratos da ISO Engenharia e do Consórcio Ravi —, segue no cargo, assinando contratos milionários e controlando os processos administrativos. Interceptações telefônicas detalham a participação dele. O MPPA sabe. A prefeita sabe. E ninguém faz nada.

Na Câmara Municipal, o presidente Flávio Gomes de Souza também integra o núcleo político segundo a denúncia. O MPPA aponta que ele recebia vantagens ilícitas via boletos pagos por empresas contratadas, em nome do próprio filho. Mesmo assim, preside a Casa e garante “aprovação” automática das contas.

Dois exemplos escandalosos resumem o descalabro das obras que estão sendo executadas hoje:

  • Parque do Mirante (Morro das Antenas): já foram pagos mais de R$ 57 milhões à Gonçalves e Dias Engenharia Ltda. — empresa citada nominalmente na denúncia do GAECO por fraudes, medições superfaturadas e pagamento de propina. Execução física? Nem 30%, segundo relatos e imagens recentes. Uma obra de “apelo turístico” que serve mais para escoar dinheiro público.
  • Reforma da Feira do Produtor: contrato de R$ 6.100.309,31 com a Construtora Sul Para Eireli (CSP), outra empresa explicitamente mencionada na ação penal por integrar o esquema. Aditivos sucessivos, tudo dentro da normalidade da “Terra Comprometida”.

O silêncio do MPPA é ensurdecedor. Onde está o GAECO agora? Onde estão as novas medidas cautelares, os afastamentos, os bloqueios de bens? Em vez de agir contra o maior esquema de desvio já identificado no Pará — com provas robustas como gravações, anotações de propina, saques em espécie e empresas que continuam vencendo licitações —, o Ministério Público parece concentrar esforços em Ananindeua, cidade governada pelo principal opositor de Helder Barbalho. Até o STF precisou intervir para apontar irregularidades nas investigações contra Dr. Daniel. Em Canaã, cidade que gera bilhões em royalties da mineração, o esquema segue intocado há mais de uma década — exatamente o período em que o MPPA/GAECO diz ter provas da organização criminosa atuando.

A mídia paraense também cumpre seu papel de omissão seletiva. Qualquer espirro mal dado por adversários do governador vira manchete. Em Canaã dos Carajás, controlada pelo “grupo dos Barbalhos” (ou aliados) há anos, reina o silêncio absoluto. Nenhuma grande emissora, jornal ou portal mainstream cobra explicações da prefeita Josemira Gadelha ou do MPPA.

Canaã não é mais a “Terra Prometida” da Bíblia. É a Terra Comprometida — e o compromisso é com a corrupção. Enquanto o MPPA caça opositores em Ananindeua, a quadrilha bilionária ri à sombra do poder em uma das cidades mais ricas do Brasil. Onde está a Justiça? Onde está a imprensa? Onde está a vergonha? Aparentemente, em lugar nenhum.



https://canalpbs.com.br/josemira-gadelha-faz-reuniao-com-presenca-de-lider-de-organizacao-criminosa-da-operacao-locus-ii/*

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