O empresário Ailson Ferreira Alves, conhecido como “Ailson da White”, dono da Talismã Locações e Transportes, reuniu cerca de 1.500 pessoas no Cristal Eventos, em Canaã dos Carajás, na noite de segunda-feira, para declarar apoio à pré-candidatura a deputado estadual de Eugênio Gadelha (número 15.321). Eugênio é marido da prefeita Josemira Gadelha e ex secretário de Obras do município. O evento foi anunciado nas redes sociais como “Grande Reunião dos Amigos do Ailson Talismã”, com discursos de união, diálogo e “compromisso com o futuro da região”.

O que as publicações promocionais não mencionam é que Ailson figura como um dos denunciados pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), em uma das maiores investigações de corrupção e organização criminosa já registradas no município.
O que a denúncia diz sobre Ailson da White
Na denúncia oferecida à Vara de Combate ao Crime Organizado de Belém, Ailson Ferreira Alves é apontado como integrante de uma organização criminosa que atua em Canaã dos Carajás pelo menos desde 2014. O grupo é acusado de fraudar licitações, direcionar contratos públicos, praticar superfaturamento e pagar propinas a agentes públicos.

Segundo o GAECO, Ailson atua em dois segmentos centrais do esquema:
- Locação de veículos, máquinas e equipamentos: Ele é descrito como um dos líderes desse núcleo, ao lado de João Vicente Ferreira do Vale (“Branco da White”) e Gilvan da Silva Pinheiro (“Gilvan da Van”). Controla a empresa Talismã Locações & Serviços Eireli e, no passado, esteve ligado a outras empresas usadas em fraudes.
- Fornecimento de combustíveis: É proprietário da Xodó Comércio de Combustíveis Ltda. e exerce influência sobre o Posto Alvorada (registrado em nome de parentes próximos, incluindo sua cunhada Fabiene Maria da Silva, também denunciada). As empresas ligadas ao grupo receberam, entre 2016 e 2024, mais de R$ 163 milhões em contratos de combustíveis do município, segundo dados do Tribunal de Contas dos Municípios.
A denúncia imputa a Ailson os crimes de frustração do caráter competitivo de licitação (art. 337-F do Código Penal), fraude em licitação ou contrato (art. 337-L) e corrupção ativa (art. 333), em concurso material.
Áudios e mensagens que citam o empresário
Trechos de mensagens e áudios extraídos de celulares apreendidos e anexados à denúncia mostram Ailson no centro das articulações. Em um dos diálogos, integrantes do esquema combinam uma reunião na chácara de Ailson. No dia 26 de fevereiro de 2024, Rafael Gonçalves Modesto informa Ismael Souza Oliveira Neto que o encontro ocorreria “na chácara do Ailson”; Ismael responde que já estava no local.
Em outra conversa, de março de 2024, Ismael afirma ter firmado com Ailson o compromisso de repassar juntos R$ 500 mil a um secretário municipal, com inclusão de medições fraudulentas:
“Fiz o compromisso de pagar 500mil pro ailson”
“Eu e ele vamos juntos alinhar com secretario”
Há ainda relatos de coação a concorrentes. Ismael conta ter sido levado de carro por Ailson, Cristiano Custódio de Queiroz e outra pessoa no início de 2023, em episódio que interpreta como ameaça para que não disputasse certas licitações. Em mensagens, ele chega a dizer que esperava ser ameaçado de morte por Ailson.
A denúncia também destaca o crescimento patrimonial de Ailson após deixar a Câmara de Vereadores (ele foi vereador e chegou a presidir a Casa). Em 2012, declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 150 mil. Em 2017, após deixar o cargo, adquiriu empresas e bens no valor aproximado de R$ 1,97 milhão — um salto de mais de 1.200%.
O contexto político
Eugênio Gadelha, engenheiro e secretário de Obras, é o principal nome apoiado por Josemira Gadelha para a Assembleia Legislativa em 2026. A prefeita, reeleita em 2024 com mais de 80% dos votos, tem alta popularidade e peso político regional. O evento organizado por Ailson é apresentado como demonstração de “união” e “projetos para a região”.
A denúncia do GAECO, no entanto, descreve um esquema que operou por anos em diversos setores da administração municipal — combustíveis, locação de equipamentos, construção civil e outros —, com divisão prévia de licitações, uso de “laranjas”, medições fraudulentas e pagamento de vantagens indevidas. Ailson aparece como peça importante desse arranjo, especialmente nos segmentos de locação e combustíveis.
Até o momento, não há informação pública de que Eugênio Gadelha ou a prefeita tenham se pronunciado sobre a presença de um denunciado por organização criminosa entre os principais apoiadores da campanha. O empresário, por sua vez, continua a promover eventos e a circular publicamente como “amigo do Ailson Talismã”.
A denúncia tramita na Justiça. Ailson e os demais denunciados têm o direito de se defender. O que a peça acusatória do Ministério Público descreve, porém, é um empresário com participação direta e reiterada em um esquema de corrupção que desviou recursos públicos em Canaã dos Carajás durante anos. É esse o perfil de quem agora aparece como anfitrião e principal mobilizador de um ato de apoio a Eugênio Gadelha.
Áudios obtidos pelo GAECO mencionam o empresário Ailson Ferreira Alves:



