Enquanto o Brasil amarga uma das piores logísticas do planeta, perde bilhões em frete caro e vê a produção de grãos do Centro-Oeste sufocada em estradas precárias, a Funai decidiu complicar ainda mais a vida de quem quer construir infraestrutura de verdade.
Em 3 de fevereiro de 2026, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas encaminhou um novo Termo de Referência para os estudos do componente indígena da Ferrogrão (EF-170). O documento não se contenta em analisar a ferrovia em si: exige agora uma avaliação ampla de impactos cumulativos de todo o corredor logístico, incluindo a BR-163, a hidrovia do Tapajós, estações de transbordo e a rodovia MT-322.
O problema? Pelo traçado atual, a Ferrogrão não cruza nenhuma terra indígena demarcada. Uma nota técnica da Advocacia-Geral da União (AGU) é clara: o projeto foi deslocado para uma faixa paralela à BR-163 justamente para evitar conflitos diretos. Segundo os critérios da Portaria Interministerial 60/2015, apenas duas terras indígenas (Praia do Mangue e Praia do Índio, em Itaituba/PA) ficam a menos de 10 km do eixo ferroviário.
Mesmo assim, a Funai resolveu ampliar o raio de forma absurda. O novo termo de referência obriga os estudos a cobrirem 19 comunidades indígenas, incluindo aldeias localizadas a mais de 160 km do traçado — distâncias que chegam perto de outras regiões, como o Parque do Xingu. Críticos chamam isso de escopo inflado, que transforma uma análise técnica em uma missão quase impossível.
Defensores da medida argumentam que o corredor precisa ser visto como um “sistema integrado”. Mas para muitos, isso soa como desculpa para eternizar a burocracia: enquanto o trem nem saiu do papel, o Brasil continua dependendo de caminhões que destroem as rodovias, aumentam o custo do transporte e geram mais emissões do que uma ferrovia moderna poderia evitar.
A Ferrogrão, que poderia transportar até 70 milhões de toneladas por ano, reduzir custos logísticos e escoar a safra do Mato Grosso de forma mais eficiente até os portos do Norte, segue engasgada em exigências sucessivas do Ibama, TCU e agora da Funai. Estudos que já foram revisados várias vezes voltam à estaca zero, e o projeto — sonhado há mais de uma década — corre o risco de virar mais um símbolo da paralisia brasileira.
Enquanto isso, o agronegócio sangra com fretes caros, o consumidor paga a conta no supermercado e o país perde competitividade internacional. Será que um dia a burocracia vai parar de colocar obstáculos infinitos no caminho do desenvolvimento?



