Apontado pelo MP por integrar organização criminosa e ligado em esquema de mais de R$ 1 milhão, presidente da Câmara de Canaã continua no poder

Canaã dos Carajás assiste a um cenário político absurdo: enquanto o Ministério Público aponta o presidente da Casa como integrante de uma organização criminosa, seus pares permanecem inertes.
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Flávio Gomes de Sousa, atual presidente da Câmara Municipal de Vereadores de Canaã dos Carajás, é citado na denúncia oferecida pelo GAECO/MPPA como integrante da organização criminosa que atua de forma sistemática no município. Em uma democracia saudável, a denúncia de que o chefe do Poder Legislativo integra uma organização criminosa (“ORCRIM”) dedicada a saquear os cofres públicos seria motivo imediato de afastamento e investigação interna. Em Canaã dos Carajás, no entanto, o que se vê é a normalização do escândalo.

O documento do GAECO é devastador. Ele coloca Flávio Gomes de Sousa no topo de um esquema que, desde 2014, manipula licitações de combustíveis, construção civil e locação de máquinas. O MPPA é claro ao afirmar que o núcleo político — do qual Flávio faz parte — controla o dinheiro público “desde a formalização da demanda até a execução contratual”..

Segundo a denúncia, ele teria recebido valores e vantagens indiretas por meio de empresas ligadas ao esquema. Especificamente, é mencionado que, em contrato de locação de veículos firmado pela Câmara de Vereadores em 2025, ele teria recebido pelo menos R$ 1.021.356,98 (um milhão, vinte e um mil, trezentos e cinquenta e seis reais e noventa e oito centavos).

Grave omissão da Câmara

O mais preocupante é que, apesar de fazer parte de uma das maiores denúncias de corrupção já feitas contra agentes públicos de Canaã dos Carajás — que envolve ex-secretários, servidores, empresários e outros vereadores —, Flávio Gomes continua ocupando a presidência da Câmara Municipal sem qualquer questionamento público ou medida concreta por parte dos demais vereadores.

Mesmo diante de acusações de corrupção passiva e lavagem de capitais que superam a cifra de R$ 10 milhões por licitação, a Câmara Municipal parece viver em uma realidade paralela. Não há pedidos de CPI, não há cobranças por transparência e, muito menos, questionamentos sobre a legitimidade de Flávio Gomes continuar comandando a pauta da cidade.

Como pode um Legislativo fiscalizar o Executivo se o seu próprio presidente é acusado de operar o esquema por dentro das instituições? A população de Canaã dos Carajás permanece refém de um sistema onde, segundo o MPPA, o interesse público foi substituído pelo lucro ilícito de uma “organização criminosa endógena”.

“Terra Comprometida”

O texto da denúncia é duro ao contrastar a imagem bíblica de Canaã como “Terra Prometida” com a realidade local: uma “Terra COMPROMETIDA” com a corrupção. A permanência de um vereador apontado como integrante da organização criminosa na presidência do Legislativo municipal é, infelizmente, mais um capítulo que reforça essa caracterização.

Em um município rico em recursos, mas historicamente marcado por denúncias de desvio de dinheiro público, a população tem o direito de cobrar respostas. Até o momento, a inércia dos vereadores sugere que o “acordo” descrito na denúncia — divisão de licitações, repasses de percentuais (como os famosos 6% citados em conversas interceptadas) e proteção mútua — ainda opera com força total.

É urgente que o Judiciário analise com celeridade a denúncia, que o Ministério Público adote as medidas cabíveis contra todos os envolvidos (incluindo os que ainda exercem mandatos) e que a sociedade civil de Canaã dos Carajás exija transparência e punição dos envolvidos. Manter na presidência da Câmara alguém citado como parte de uma organização criminosa que desviou milhões não é normalidade institucional — é sintoma de captura.

A “Terra Prometida” merece mais do que isso.

Enquanto a justiça caminha, a moralidade pública em Canaã parece ter sido enterrada sob o peso das notas fiscais frias e dos contratos superfaturados apontados pelo GAECO.

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